segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Numa Escola de Havana





O que mais impressiona em
Chala, personagem interpretado por Armando Valdes Freire - 11 anos, no filme Numa Escola de Havana, é o fato do protagonista parecer bem mais velho que o ator que o interpreta. A maturidade, certamente creditada ao jeito emotivo ou realista que o personagem assume perante as responsabilidades, vendendo pombos ou a colocando cães em rinha para conseguir dinheiro e sustentar a casa, onde sofre um abandono pela mãe que é dependente química.
Este contraponto da maturidade de Chala aos conflitos que a trama apresenta, acontece ao meio de um grande elenco infantil  que está a altura ou, como notamos no filme,  ultrapassa a qualidade em relação ao elenco de adultos.
Crianças cubanas com suas histórias individuais, aparecem `a margem do núcleo narrativo que se dá na história pessoal de Chala em relação a sua professora Carmela, interpretada por Alina Rodrigues, a experiente atriz da sétima arte cubana falecida em julho de 2015 com 63 anos.
Pela incógnita do pai ser realmente Ignácio (aquele que ajuda Chala a conseguir dinheiro na rinha de cães), ou o desespero da omissão materna por conta das drogas, a história de Chala já seria um daqueles “dramalhões” ao mostrar as ruínas do regime da ilha e a impossibilidade de resoluções dos conflitos familiares. Com trilha sonora emotiva e lindas tomadas em planos gerais, ora plongeé sobre os prédios de Havana, ora em panorâmicas observando o movimento das ruas e das cores no  povo cubano, já teríamos até agora esteticamente a belíssima fotografia e a maravilhosa interpretação dos atores. Contudo, o diretor Ernesto Daranas consegue ir além, mergulha no imaginário utópico em que a educação pode salvar o ser humano como uma arma de resiliência, o que transforma Conducta (nome original do filme) em um expressivo longa – metragem, ao qual desloca os espectadores do tempo cronológico. A relação de Chala com a professora Carmela, sendo ela a única pessoa `a qual respeita, nos mostra uma antítese da falta material do regime cubano, agonizante e pobre, apresentando a educação cubana em sua maior virtude, a qualidade e a importância da relação docente/discente.
Em resumo: Chala é “perseguido” por uma assistente social que quer mandá-lo para uma escola de conduta (um tipo de reformatório), a professora Carmela luta contra a burocracia do governo para protegê-lo e deixá-lo estudando, pois sabe das suas dificuldades familiares. Chala gosta de uma estudante de sua sala de aula, o seu “primeiro amor”, ela dança flamenco e também tem dificuldades para frequentar a escola, pois sofre preconceito por ser “palestina”, e assim o roteiro se desenvolve com diálogos de novela,  mas com ritmo e fotografia de cinema.
Um aspecto relevante, indiretamente em debate no filme, é a reflexão sobre a qualidade do ensino que está intimamente ligada aos pilares da educação publicados em 1990 pela UNESCO. No filme este é o pilar que diz respeito a “aprender a viver com os outros”. Na obra cinematográfica são construídas identidades em conflito, mostrando a importância de uma docência com consciência e prática de conceitos como humanismo, autonomia, liberdade e disciplina.
O filme pode ser comparado a dois grandes filmes franceses em ambientes escolares, Os incompreendidos (1959) de François Truffaut e Entre os Muros da Escola (2008) de Laurent Cantet. O clássico de Truffaut é lembrado pelo fato do personagem de Antoine Doinel ser da mesma faixa etária de Chala, contudo, a narrativa daquele gira em torno da crise familiar e não de sua relação com o ambiente escolar. Já o premiado no festival de Cannes de 2009, “Entre os muros da escola”, apresenta em diálogos ásperos e inteligentes, a dificuldade de motivação e de convivência dentro da sala de aula numa escola da periferia parisiense neste início de século.
Em relação a educação brasileira, notamos um grande hiato entre uma grande “rede de ensino” (onde a capilarização brasileira é expressiva) e um grande “sistema de ensino”, como é o sistema educacional cubano, onde a qualidade é comprovada pelos índices mundiais ocupados por este sistema. Notamos a importância de uma visão qualitativa, onde apenas os números de alunos dentro de sala de aula ou do número de escolas nunca irão alcançar.
O Educador Paulo Freire, ao profetizar a autonomia da profissão do educador escreveu: “ sem discência não há docência”, e é este resgate que a velha professora Carmela nos ensina, ao lutar por uma criança com a puerilidade punida pelo destino. Seu pupilo, Chala, o nosso pequeno grande herói na ilha de Fidel,  é portanto, o “Andoine Doinel” que quer ir `a escola, este sistema de educação onde “aprender a viver com os outros” é o pilar principal, em contraponto a` este ocidente excitado por falsos educandários. Um sistema de educação que realmente preocupa-se com os alunos, talvez último e único contraponto a um regime utópico em ruínas, onde os muros são a burocracia , a indiferença e a pobreza.